terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

GOVERNO UNIVERSAL: DO FISIOLOGISMO ÀS COTAS

É incrível como nossa língua portuguesa tem o poder de modificar as intenções das coisas. Antes à esquerda, era contra o chamado fisiologismo: uma prática comum dos grupos de direita de dividir-se em cargos no governo. Víamos manifestações e ouvíamos discursos inflamados contra a política fisiologista da direita. Tanto que quando a esquerda se organizava para disputar um pleito, quem falasse em cargos, era sumariamente expulso ou mesmo execrado com fisiologista. A tônica do vocábulo era a discussão de idéias, de ideologia, melhor dizendo.
Outrora a palavra quadro era uma ofensa, ser militante era mais apropriado aos que queriam botar a direita para fora do poder. Para acabar com o fisiologismo, o governo de quadros etc. Será que estou louco ou vivemos no mundo de sinônimos que fazem virar nossa história política pelo avesso? Sei lá acho que o novo acordo ortográfico tem culpa de tudo isso.
Hoje com a esquerda no poder o que era fisiologismo chamam-se, cotas. Pode? Cotas é uma forma mais moderna de atribuir a partilha dos cargos com os aliados ou dos não aliados, aliás, é assim que esses últimos são chamados os que outrora chamávamos reacionário, oposição. Os militantes que não queriam ser chamados de quadros agora são agentes sociais, ou lideranças políticas. A ignomínia tem roupagem sofisticada.
Pois e os outros? Onde se enquadram os críticos, os descontentes ou mesmo o eleitor. Os críticos são os insatisfeitos, os descontentes são os que não conseguiram acompanhar evolução das relações pluripartidárias, e o eleitor é o Idiota Político, com direito a edição de capa dura.
Como mudam os tempos. E as palavras? Quantos sentidos fazem para nossa vida. O que assistimos na modernidade é o chamado Governo Universal . O que isso quer dizer? É simples: acabaram-se as fronteiras internacionais, regionais ou estaduais ou mesmo municipais. As coalizões partidárias podem exportar e importar seus líderes, como não é de se assustar se o ministro da educação da Bahia vier do Rio de janeiro, ou se o Secretário de infra-estrutura da cidade do Acre for baiano. Ou mesmo que qualquer gestor público seja naturalizado, apenas para exercer o cargo. Agora estamos no tempo da política globalizada. Xique? Chique ou Chick?
Ontem o fisiologismo era alvo de repulsa, agora ele se chama Cotas, mais aprazível, tudo de acordo o sentido da modernidade. Cotas da fatia do poder. Não importa quem, de onde venha, ou para que esteja á frente dos cargos. O que importa é como um governo vai manter a sua sustentação partidária e sua hegemonia política, por maior tempo possível.